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Santo emprego, Batman!

Deve ter sido no final dos anos 60, início dos 70. Sentado, ansioso em frente à velha TV preto e branco do vizinho assistia, atônito, com as mãos trêmulas e suadas, Batman e Robin pendurados por uma finíssima batcorda, num edifício qualquer de uma indecifrável Gothan City. Batman mais acima e Robin logo abaixo, ambos a uns 100m do chão. A câmera mostra a visão do menino prodígio, que olha para a avenida lá embaixo. Um foque/desfoque simula uma leve tonteira que Dick Grayson estaria sofrendo. Em seguida, o eterno protegido de Batman solta uma frase, bem ao estilo POP do seriado: “Santo emprego, Batman, será que não existe outra forma de se ganhar a vida?”.

Essa cena cunhou uma dúvida que jamais saiu da minha cabeça sonhadora de menino: por que aqueles dois loucos viviam se arriscando contra os piores, mais ensandecidos e mais hilários vilões dos quadrinhos, se suas identidades secretas lhes garantiam uma vida tranquila, confortável e próspera? Por que correrem o risco de serem devorados por tubarões, serrados ao meio ou derretidos em ácido, se poderiam simplesmente serem bajulados o tempo todo por um Alfred sempre atencioso e prestativo?

Por quê?

Que droga inebriante os levava sair todas as noites, destemidamente, sem saber se votariam inteiros ou mesmo vivos para casa? Somente depois de muitos anos militando numa profissão também cheia de desafios, foi que descobri a resposta. A paixão. Só ela seria capaz de nos catapultar para além das raias da razão quando um novo desafio nos olha nos olhos, enigmaticamente, cheio de ansiedade.  Sim, só a paixão por uma profissão poderia explicar essa inquietude que nos consome e nos excita a buscar o inexplicável, o campo virgem das ideias, a aridez dos desejos e expectativas, para neles semear algo que obrigatoriamente tenha o frescor do novo, a força do verdadeiro e a eficácia do encantamento.

A paixão é assim, arrebatadora. E quando correspondida, explode num amor “pra vida inteira”, ou, como dizia o poetinha, torna-se “eterna enquanto dure”, mas quanto mais ela nos desafia, mais nos entregamos, mais riscos corremos, mais inebriante se torna a conquista.

Acredito, de verdade, que assim é a nossa profissão. Seja ela embasada no design, na propaganda ou nas artes visuais como um todo. Ela é assim, desafiadora como estar amarrado sob um pêndulo de Poe, ou prestes a ser mergulhado num tanque de cera quente, e mesmo assim, continuar a imaginar soluções e abordagens que, de algum modo, sabemos ter o poder de nos anestesiar contra qualquer tipo de insucesso. Pois o que nos move é essa paixão que nos dá, com a medida certa de loucura, a certeza de que, de alguma forma, sairemos mais uma vez ilesos de mais uma dessas armadilhas, para, em breve, voltarmos a nos pendurar  novamente por uma delgadíssima corda do alto de um edifício e gritarmos, sem pestanejar: santo emprego, será que não existe outra forma de se ganhar a vida?

Para mim simplesmente não há.

Até a próxima.

Sergio Confort

2 thoughts on “Santo emprego, Batman!

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